28.5.09

presidencialismo de coalizão


John Merriman, "A History of Modern Europe":

"But sovereigns needed to woo nobles to gain their compliance. In exchange for loyalty and in many cases service, rulers confirmed noble privileges and allowed them to continue to dominate state and local government. "Tables of ranks" dividing nobles into distinct grades or ranks were established at the turn of the century by the kings of Sweden, Denmark, Prussia, and Russia, making it clear that noble privileges were bestowed by monarchs. Louis XIV of France (ruled 1643-1715) asserted the right to monitor the legitimacy of all titles and even to confiscate noble estates. In 1668, he ordered the investigation of "false" nobles holding dubious titles. These measures helped the king maintain the loyalty of nobles, some of whom resented those who held titles they considered suspect. The great noble families thereafter enjoyed an even greater monopoly over the most lucrative and prestigious royal and ecclesiastical posts."

25.5.09

o futuro é o que sempre foi


Foi o dramaturgo Eugene O'Neill quem disse que "não existe presente ou futuro, apenas o passado, acontecendo de novo e de novo, agora".

A frase e seu autor dariam uma excelente epígrafe para o livro "Futuros Imaginários", de Richard Barbrook, pelo diálogo com a tensão entre evolução e permanência como atributos da história, e pela crítica mordaz dos desvãos do sonho americano.

Mas Barbrook, ao contrário de O'Neill, não é norte-americano (ou estadounidense, como preferem os integrantes do grupo DesCentro, que fizeram de maneira colaborativa a tradução do livro para o português) nem foi marinheiro na juventude. Cientista político, professor de hipermídia na Universidade de Westminster, na Inglaterra, Barbrook representa antes o social-democrata europeu dividido entre a exumação dos equívocos do socialismo e a tarefa de consciência crítica das ilusões atlânticas.

Sintonizado com esta missão, "Futuros Imaginários" parte de uma recordação de infância de seu autor, a visita à Feira Mundial de Nova Iorque de 1964, para fazer uma longa viagem pelo entrelaçamento entre as promessas tecnológicas do passado e a geopolítica norte-americana da Guerra Fria e pela história de apropriações políticas, econômicas, militares e culturais vividas pela tecnologia ao longo do século XX.

No percurso, expõe o uso da tecnologia como ponta-de-lança da conquista simbólica do futuro pelo capitalismo democrático americano, em oposição ao atraso comunista. Lembra o emprego bélico destruidor da maior parte dos avanços conquistados. Explora os caminhos da disseminação acadêmica e popular da cibernética de Norbert Wiener e da aldeia global de Marshall McLuhan como pedras de toque de um novo imaginário coletivo. Aponta o impacto de ambas para a difusão paralela da crença no determinismo tecnológico condicionando positivamente os destinos humanos. Recorda as promessas não-cumpridas da inteligência artificial, das viagens espaciais e da energia nuclear. Destaca a frustração das expectativas de redenção social outrora associadas ao advento das novas tecnologias digitais.

Ao fazer isso, Barbrook, ele próprio um veterano do movimento de rádios comunitárias na Londres dos anos 80, não ignora o potencial libertário efetivo da internet. Que um aparato social com a importância que ela tem hoje possa ter consolidado-se globalmente sob a hegemonia da abertura, da descentralidade e da anarquia quase irrestritas é em qualquer caso um acontecimento digno de nota em nosso mundo. Que a "economia da dádiva" e o espírito dos "commons" tenham logrado tomar a dianteira no ciberespaço, barrando em muitos casos a sua colonização pelas regras comerciais do "mundo físico", é um imprevisto que não pode desagradar a nenhum socialista.

Mais ainda, as promessas cumpridas do livre fluxo de informação em todos os sentidos e do acesso quase irrestrito ao acervo do conhecimento humano são sismos profundos cujos efeitos talvez apenas tenham começado a propagar-se. E aqui Barbrook, como no caso da decretação das mortes da energia nuclear e do turismo espacial, talvez se traia pela impaciência das gerações do "make it new" e do tempo real em aguardar a chegada do futuro.

Mas é que não se trata aqui de medir os passos pela métrica da reforma. Do mesmo modo que denuncia ferozmente o conteúdo imperialista das conquistas tecnológicas dos EUA da Guerra Fria e desqualifica como conspirações fraudulentas as terceiras vias centristas gestadas sob o liberalismo americano, Barbrook apoia a constatação de que "a chegada da sociedade da informação não precipitou uma transformação social mais extensa" sobre o fato de que "o comunismo cibernético é bem compatível com o capitalismo ponto com".

O futuro imaginário de Barbrook é revolucionário. E a internet portanto precisa ser julgada pela confirmação ou não da sua vocação para abrigá-lo, sob a forma de um "marxismo-mcluhanismo" de democracia participativa e criatividade cooperativa, retroalimentando a transformação social do mundo físico. Nesta perspectiva, é animador que hackers ocupem hoje o centro do imaginário contracultural, os desafios à propriedade intelectual atualizem a desobediência civil na era do conhecimento e que o Pirate Bay funcione como uma espécie de comunidade hippie contemporânea. Mas é desconcertante que antigos hippies autênticos liderem na California a reinvenção do mercado na web, como um dia ex-trotskystas impulsionaram a reinvenção do sonho americano na Guerra Fria, e que "mais do que debater os assuntos políticos urgentes do dia" a maioria dos internautas prefira dedicar-se a "fofocas sobre suas experiências pessoais, amigos, celebridades, esportes, músicas populares, programas de TV e viagens de férias". Como um dia jovens suburbanos preferiram Elvis a Lenin.

De fato, talvez a principal promessa não-cumprida dos sonhos de uma nova sociedade em qualquer tempo seja a da criação de um "novo homem" correspondente. O que leva Barbrook a concluir sua viagem com um apelo à recuperação da crença na autonomia humana na escrita da história. A mensagem é clara, e transcende o meio: como qualquer tecnologia, a internet é apenas um conjunto de máquinas, e responderá aos comandos que dermos a ela. É natural que os velhos dilemas humanos se reproduzam ali, mas não se deve desanimar: já estava também em Marx que as restrições históricas e pessoais não impedem as pessoas de fazer sua própria história. "Para ser inteligente, o marxismo-mcluhanismo do início do século XXI deve se tornar humanista".

Nesta atualização da fé nas possibilidades utópicas, é o caso de se perguntar o que pensará Barbrook do movimento online que sustentou a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos no ano passado. Nova síntese inspiradora ou reprodução no presente do passado de captura do futuro por terceiras vias fraudulentas? Mas esse já é outro lance. O fato é que entre as microdoações de Obama, a exposição de gastos públicos no Brasil, os blogs de insurgentes chineses, os remixes de DJs suecos, os novos modelos de negócios das trocas virtuais e os embates simbólicos e legislativos entre o matrix e a aldeia global, há uma infinitude de novos capítulos por serem escritos até que saibamos o final dessa história. O bom do futuro é que por mais que não exista, ele está sempre em aberto.

(Resenha produzida para o caderno Prosa e Verso, do Globo, publicada em 23/5.)

16.5.09

polca-lundu


Joaquim Manuel de Macedo:

"E o pior é que o gosto e a originalidade desses cantos, cuja música tinha um caráter que a fazia distinguir da música característica de todas as outras nações, têm-se ido perdendo pouco a pouco, sacrificada ao canto italiano, cuja imitação é, desde alguns anos, o pensamento dominante dos nossos compositores. As modinhas e os lundus brasileiros quase que já não existem senão na memória dos antigos; foram banidos dos salões elegantes e com todos os costumes primitivos, à semelhança das aves que, espantadas dos bosques vizinhos do litoral pelo ruído da conquista dos homens, fogem para as sombrias florestas do interior. Lá se acham proscritas, e felizmente ainda conservadas com a sua patriótica pureza no seio dos vales e no trono das montanhas, onde a população agrícola as asila em seus lares, vive com eles, alimentando a flama das recordações passadas que o estrangeirismo apagou nas cidades.

Para a música característica brasileira isso é uma verdadeira calamidade e a ópera nacional, recentemente criada, se quiser ser nacional, deve opor-se à continuação de tão grave erro, excitando os nossos novos e talentosos compositores a escreverem naquele gosto que, bem aproveitado pela arte, pode produzir obras originais e de incontestável merecimento."

6.5.09

são paulo


Um amigo carioca chega eufórico de fim-de-semana em SP. Virada Cultural. Os serviços, a educação das pessoas, a gentileza. Não quer mais o estado permanente de alerta do Rio. Não quer mais ser malandro.

Caetano dá seu testemunho sobre o assunto.

Sim, o bom carioca traído pelo espelho no alto da serra não se engana: São Paulo não é malandra, é terra de gente ordeira e trabalhadora, e é gentil. Caipira mesmo, disciplinada no cultivo, simples no trato cotidiano, afetuosa na receptividade, quase ingênua no fascínio das descobertas do mundo. Deslumbrante e deslumbrada, a maior cidade do interior de São Paulo.

Mas São Paulo foi sempre a cidade do trabalho, dinheiro e debandada no feriado. Nenhum convívio na rua. Nenhum compromisso com a beleza, nem mesmo com a riqueza pública. Vida privada e selva de pedra. Terra de Jânio, Ademar e Maluf, lançando viadutos sobre a intelectualidade transviada. Convencida do vigor ou das oportunidades que pudessem haver nisso.

"A cidade de São Paulo na América do Sul não era um livro que tinha cara de bichos esquisitos e animais de história.
Apenas nas noites dos verões dos serões de grilos armavam campo aviatório com os berros do invencível São Bento as baratas torvas da sala de jantar."

Muito bem: é isso que está mudando. Museu da Língua, Cidade Limpa, Augusta, Racionais, jovens cantoras discretas e elegantes, sim. E também praças com skate e ginástica, livrarias com bancos e poltronas, CEUs e saraus, novas calçadas. "Nossa São Paulo", muito mais importante pelo nossa do que pelo São Paulo, e pela imensa quantidade de pessoas e movimento que há aí.

A cidade já não se apraz em ser selva, quer ser cidade. É sintomático demais que a Lei Cidade Limpa muito mais do que funcionado, tenha permanecido 3 anos depois como citação primeira de bom governo na fala de virtualmente qualquer paulistano. E não é coincidência que o último debate eleitoral sobre a cidade tenha presenciado os líderes Kassab e Marta disputando a primazia na criação de escolas e postos de saúde na periferia, no número de novos parques inaugurados e no transporte público, enquanto Soninha sustentava que tudo isso era pouco e falava em ciclovias, e Maluf falava sozinho que tudo era secundário e que o importante mesmo era abrir novas vias para fazer os carros circularem e a cidade não parar. Não foi apenas Maluf que ficou sujo, aquele discurso é que ficou velho.

E assim a terra dos imigrantes desterrados vai se tornando a cidade dos paulistanos.

Que isso se dê simultaneamente à confirmação da visão rejuvenescedora de sua melhor elite no final dos anos 90 de conversão dela em cidade global pós-industrial e à sua afirmação como ponta-de-lança de um novo Brasil aprimorado e emergente é uma conjunção feliz, que faz jus à trajetória. Ronaldo é da Fiel.

3.5.09

sobre a cegueira


Deustche Presse:


"Hong Kong - A businessman trapped in a Hong Kong hotel where Asia's first swine-flu patient was found spoke Saturday of escalating tensions among the guests who have been quarantined there for seven days.

The Hong Kong government took the radical step of sealing off the Metropark Hotel in the city's Wan Chai district Friday night after confirming that a Mexican man who stayed there had the virus. The decision quarantined 240 guests and more than 100 staff.

Indian national Kevin Ireland, 45, said people had become agitated after first being told by staff that they would be kept in the hotel for only 24 hours and then learning from TV broadcasts that the quarantine period was a full week.

"This morning, there was a Korean gentleman, and he was way off the handle", the father of two from New Delhi said, speaking from his hotel room. "He was screaming and shouting and throwing a tantrum. There is a young couple from the UK. She has been crying incessantly".

"Then there is a South African couple with a 10-month-old baby and their grandmother. The wife was taken away for tests and they are really quite agitated".

Ireland, who runs a business called Indo-Spanish Marketing Services, said the atmosphere at the hotel changed dramatically in a short time as agitation among the guests rose.

"On Friday night, we were all laughing and joking and trying to make light of it", he said. "That was when we thought it was only for 24 hours. Now it seems real, and we've all got jobs to do, lives to lead and responsibilities".

The drama began as Ireland and two Spanish colleagues, visiting Hong Kong for a trade fair, tried to leave the hotel for dinner Friday evening.

"Suddenly, we saw a lot of policemen and other people in protective gear in the lobby, and they said, 'No, you can't go out, and we advise you to put on protective face masks'", he said.

"They weren't letting people out, and they were keeping out people who wanted to come back in", he said. ''There were mutterings about swine flu. There was no clear information until much later".

A sign in the lobby said guests would be kept in the hotel for 24 hours, Ireland said but when he went to his room and switched on the television, he found out otherwise.

The situation was made more tense by the attitude of police in the hotel who, he said, were "brusque and standoffish". "There are lots of people here from Spain and other countries who just don't understand them", he added.

"They should be a little bit more gentle. At the end of the day, we just happened to be in the wrong place. They need to be a little bit more patient with people".

Other concerns are also playing on his mind, he said.

"I haven't told my daughters because why I don't want to worry them", he said of his 7- and 12-year-old girls, "but one of my doctor friends told me to take it easy and not to fret. The problem is this was only supposed to be a short trip, and I didn't bring books or enough to wear".

That concern is shared by other guests, who may go to a help desk at the hotel where they can ask for necessities. Most people have been asking for fresh underwear, Ireland said.

"Today our rooms weren't cleaned", he added. "There is no room service. There is no change of linen, sheets or towels because they have no access to clean linen from outside".

Asked what guests thought of the quarantine measure, Ireland said: "People think it is an overreaction. We have access to the internet and news channels, and everyone is doing their own fact-finding".

"This swine flu is all over the place and it's only in Mexico where it's really severe, but nowhere else have they put people into isolation or quarantine like this".

He attributed Hong Kong's caution to its experience in 2003 with SARS, or severe acute respiratory syndrome, which killed 299 people and infected about 1,800 in the city.

"On one level, it is good", he said. "They are more prepared than most countries".

But he also criticized authorities for keeping the Metropark's guests in the dark.

"Dissemination of any kind of information is lacking", he said. "You ask people questions, and you get no response"."

Fotos: http://search.us.reuters.com/query/?q=swine+flu+hotel+hong+kong&s=USPHOTOS#.

E vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=6wyj1V-aKVc.

2.5.09

casa grande


Do Extra:


"Cirene Darck, de 54 anos, prestou queixa ontem, na 24a DP (Piedade), contra sua empregada, Nádia Pereira. Segundo Cirene, Nádia a agrediu violentamente por motivos religiosos. A patroa é adepta de cultos afros e a empregada, evangélica. Abalada e machucada, Cirene contou que foi empurrada, espancada e presa num quarto que, posteriormente, foi incendiado pela empregada."

1.5.09

luiz inácio


"Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
Muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu."

Mas há quem discorde: http://corruptosbrasileiros.spaces.live.com/blog/cns!C2D7198622BECBFC!2737.entry.

 
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