27.8.09

igualdade / diversidade


Ryszard Kapuscinski, "The Other":

"Conquer, colonise, master, make dependent - this reaction to Others recurs constantly throughout the history of the world. The idea of equality with the Other only occurs to the human mind very late on, many thousands of years after man first left traces of his presence on Earth.

[...]

If the Enlightenment told us that the Other is a person equal to us, a member of the same family to which we belong, and if compared with the Enlightenment later anthropology took a step forwards, showing the European that the person from another race and tradition has his own, higly developed social and spiritual culture - then Emmanuel Lévinas took us further still, proclaiming praise for the superiority of the Other, and our duty to take responsibility for him."

Stephen M. Kosslyn, em "What Have You Changed Your Mind
About?":

"The notion is that a variety of factors in our environment, including our social envinronment, configure our brains. It's true for language and I bet it's true for politeness and a raft of other kinds of phenomena. The genes result in a profusion of connections among neurons, which provide a playing field for the world to select and configure so that we fit the environment in which we inhabit. The world comes into our head, configuring us. The brain and its environment are not as separate as they might appear.

This perspective leads me to wonder whether we can assume that the brains of people living in different cultures process information in precisely the same ways. Yes, people the world over have much in common - we are members of the same species, after all - but even small changes in wiring may lead us to use the common machinery in different ways. If so, then people from different cultures may have unique perspectives on common problems and be poised to make unique contributions toward solving such problems."

Veja, 26/08:

"A velocidade humana tem barreiras físicas bem conhecidas. A dificuldade está em adaptar a teoria a um atleta específico. Parte da facilidade com que Usain Bolt supera seus adversários se deve às origens étnicas. No passado, populações isoladas desenvolveram capacidades físicas específicas que ficaram impressas nos genes. Corredores com herança genética da África Oriental, como os etíopes e os quenianos, têm nos músculos grande quantidade de fibras de contração lenta, o que os torna vencedores naturais de maratonas. "Já os indivíduos com genes da África Ocidental, de onde provavelmente vieram os ascendentes do corredor jamaicano, têm mais fibras de contração rápida. São ótimos em provas de aceleração explosiva", disse a VEJA o antropólogo Daniel Lieberman, da Universidade de Harvard."

Genética e neurociência decidamente ainda vão dar muito pano pra manga neste nosso século.

16.8.09

rio


A série "Democracia nas Favelas" publicada pelo Globo ao longo dessa semana é uma boa nova sobre uma boa nova.

A primeira novidade é a evidência nascente do Rio de Janeiro afinal assimilando o sentido de que é preciso fazer segurança pública e outras políticas para as favelas, e não contra elas. Ou para promover direitos e inclusão, e não por complacência paternalista. Parece trivial, mas sendo verdade é movimento que desloca o prisma local da casa grande/senzala para o da cidade contemporânea. Colônia de engenho para modernidade. Nostalgia aristrocrática para visão de futuro.

É animador ver a presença da polícia em favelas sendo formulada sob a ótica dos benefícios para seus moradores. Vê-los ganhando rostos como personagens possíveis da cidade: indo e vindo, formulando expectativas e histórias de vida, negociando aspirações e conflitos do convívio democrático. Circulação sem receio, reconquista do espaço público, o horário da festa e o volume do som, o mercado imobiliário, serviços públicos autorizados a instalar-se, ensaios de ausência de fronteiras e interação com o "asfalto". Cidade.

Já não era sem tempo. E a segunda boa nova é justamente que uma visão assim se revele no Globo. Não por qualquer ranço preconceituoso contra o jornal, mas pela sugestão da Zona Sul carioca compreendendo este movimento. Não é pequena nem assintomática a distância entre manchetes como "tiroteio no Cantagalo leva pânico a Ipanema", de 2005, e "cidadania lenta e gradual", que abre a série dessa semana. É verdade que ainda falta muito, as matrizes delimitadas pelas duas manchetes ainda se alternam na disputa de espaço (basta lembrar a expressão recente da compulsão pela remoção de favelas, restando saber quais favelas exatamente se quer remover), a visão ainda não vai além do que está ao seu alcance (Zonas Norte e Oeste continuam não existindo, estamos longe ainda de conversar sobre os mapas da exclusão, da educação, da saúde etc. da cidade inteira). Mas uma coisa de cada vez, e a de agora é não deixar escapar o que há de novo sob o Sol.

Porque é mais do que a foto do dia, é o imaginário da cidade. Do mesmo modo que em São Paulo a lei "Cidade Limpa" funcionou como ponto de inflexão no subconsciente de uma cidade que se sentia irremediavelmente feia e voraz, propagando o desejo e a crença nas possibilidades de refazê-la bela e habitável, no Rio, que jamais duvidou da própria beleza e urbanidade, a imagem de sucesso das "Unidades de Pacificação" que vai se delineando é clara candidata a cumprir o papel em relação ao sentimento de ilegalidade e fragmentação insuperáveis.

Não dá pra ver menos, porque não dá pra querer menos, depois de tanto tempo. Um passo em boa direção é apenas isso, alguém poderia e deveria dizer. Mas em termos públicos quando se vem de andar em círculos ou quando o movimento parece encaixar uma nova convergência de rumos, pode ser mais. Poder terminar a leitura com a percepção de que algo se move no Rio de Janeiro para além dos ciclos de perplexidade e resignação diante do declínio é certamente mais. Parecer possível somar a isso a intuição nas entrelinhas de um futuro desejável - confiante, diverso, voltado para adiante - compartilhado é nova que não pode deixar de ser saudada. Para quem compartilha do desejo, a série dessa semana pode ser bom antídoto para "Leite Derramado".

 
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