23.2.10

fim da canção


Fim da canção é um mote sedutor. Tem a atração acolhedora de toda melancolia.

Termino de ler o ensaio de Fernando de Barros e Silva, na revista Serrote, sobre o assunto.

Como todos antes dele, ele persegue a lebre levantada por Chico Buarque no final de 2004 (em entrevista ao próprio Barros e Silva): "Assim como a ópera, a música lírica, foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido. [...] Quando você vê um fenômeno como o rap, talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou."

O texto é bom, repleto de insights e referências instigantes. A tese é simples: a proposta de Chico não pode ser tomada ao pé da letra, ou da partitura, mas sim em seu conteúdo simbólico. A canção, é claro, continua a existir, apenas com menor originalidade e centralidade (como a ópera, sempre se poderia dizer). Não vem ao caso discutir isso. O fim que conta é o do mito/projeto dela como expressão refinada de uma identidade comum do povo brasileiro.

E conta mais, propõe Fernando, pelo que revela dos caminhos do Brasil de hoje: "Se essa discussão vai além de um cabo de guerra tolo entre especialistas, para tocar, como sugerimos, em um nervo sensível da cultura, é também porque ela transborda por todos os lados e exprime uma dúvida de fundo a respeito do momento histórico atual."

O fim do mito da canção seria o correspondente estético do esgotamento de seu projeto político. Fala José Miguel Wisnik: "No Brasil, a possibilidade de haver música popular difundida em grande quantidade e com extraordinária qualidade ligou-se ao mesmo tempo ao horizonte de uma modernização progressista do país." Este horizonte, diz Barros e Silva, é que teria sumido junto com a canção do nosso campo de visão.

Não é pouca coisa. E alguém poderia sugerir que é projeção demais para um pobre violão (tanta expectativa em torno da música popular faz pensar no Fitzcarraldo de Werner Herzog, empenhado em levar ópera Amazônia adentro). Mas é justo também: a canção popular no Brasil guarda a marca profunda de um tempo (ou de um século, como propõe Chico), e um tempo em que todos souberam cantar "Chega de Saudade" tem sua beleza a ser velada.

Só que Fernando de Barros vai além. Logo depois de alertar que o mito/projeto em questão nunca foi muito mais do que das classes médias letradas dos centros urbanos, trai-se na constatação de um "rebaixamento brutal do gosto" e uma "regressão da audição" no Brasil de hoje, por conta da hegemonia de gêneros como o neosertanejo, o axé ou o pagode (e é sintomático que não lhe ocorra então falar em funk, brega ou forró eletrônico). Recorre a uma excelente oposição proposta por Marcelo Coelho entre "Gente Humilde" ("e eu que não creio, peço a Deus por minha gente, é gente humilde, que vontade de chorar"), de 1969, e "Subúrbio" ("lá não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente, que futuro tem aquela gente toda), de 2006, para enxergar aí um Chico Buarque, como aquelas mesmas classes médias letradas, inquieto diante da afirmação regressiva de linguagens e poderes periféricos.

Nesta leitura, o "fala Penha, fala Irajá, fala Encantando, Bangu, fala Realengo" de "Subúrbio" seria antes uma rendição do que uma saudação. O "evoé, jovens à vista" de "Paratodos", em 1993, não teria sido bem para esses jovens (os da "língua do rap"). E Chico estaria então "exilado dentro de casa" - a canção, o Rio de Janeiro, o Brasil.

Não é o caso de disputar com Barros e Silva a primazia da interpretação de Chico Buarque (o mesmo de "Carioca" e "Baioque"). Mas talvez seja o de propor que cada um fale por si.

Chico em 2004 apenas cantava a bola da década de Lula, das periferias emergentes e do "agora por eles mesmos". E o fazia com a grandeza e generosidade habituais, sem em nenhum momento pedir que não se altere o samba tanto assim. Não é a ele portanto que qualquer saudosismo deve ser imputado.

Já eu, por exemplo, escrevo tudo isso sem conseguir deixar de pensar na "Lapa" de "Guinga e Pedro Sá", "Lula e FH", cantada por Caetano ainda no ano passado. Ou em Mano Brown reverenciando "Construção" na Rolling Stone. No êxito não-tutelado dos dois filhos de Francisco, de Chimbinha e Joelma, Marlboro e Márcio Victor (e de Lula também, por que não?). Em Marina Silva e MV Bill advogando educação de qualidade.

As imagens poderiam multiplicar-se, até bem além dos limites do "nosso samba" de "Feitiço", que já em 2002 tinha "mangue beat, berimbau, hip-hop, Vigário Geral, Capão Redondo e Candeal". E funk. Imagens todas, creio eu, da mesma década antevista por Chico e que escapam sugestivamente ao radar de Barros e Silva.

Não ignoro, é claro, as acusações de complacência que sua invocação pode despertar. Nem o muito por avaliar na distância entre o país, a "nova classe média" e a musicalidade que resultam daí e os roteiros de progresso e inclusão traçados pela canção. Mas gosto de refletir sobre a oposição entre as repetições insistentes de "tem" em "Feitiço" e de "não tem" em "Subúrbio". E vejo inícios (ou continuações) demais em tudo isso para satisfazer-me com o "fim de linha histórico" a que Fernando de Barros chega no final de seu ensaio.

Tem mais samba o perdão que a despedida. Diante de um texto tão genuinamente belo como o de Barros e Silva, não serei eu a reivindicar a massa afinal comendo o fino biscoito que fabricamos. No fundo, a motivação fundamental desse artigo é apenas a de não poder deixar de notar os riscos de excessos no trato tanto com mitos, quanto com contramitos. Ao apontar a mistificação contida nas expectativas das classes médias letradas em relação à canção, Fernando de Barros lembra como elas "muitas vezes, inclusive no período em questão, confundiram suas aspirações (e ilusões) com os interesses nacionais". Talvez seja preciso cuidado para não fazer o mesmo com as desilusões.

18.2.10

artista inconfessável


João Cabral de Melo Neto, em entrevista a Bebeto Abrantes em 1999, recém-publicada na revista
Sibila:

- Para você, João, escrever era uma coisa fácil ou uma coisa que exigia…
- Dificílima, foi sempre uma coisa muito difícil, sabe?
- Mas talvez por uma autoexigência elevadíssima, não é? Por que você acreditava que era difícil, você sentia como difícil?
- Porque eu não queria fazer essa poesia que todo mundo faz, compreende?
- Se era tão difícil, por que você escrevia?
- Ah, por uma necessidade interior.
- Necessidade da alma?
- Necessidade que a pessoa tem de ter um hobby.

11.2.10

política é bola na rede


O presidente Lula gosta muito de futebol e de valer-se de metáforas futebolísticas para falar de política. Eu gosto também, de futebol e da eficiência das metáforas do presidente.

Mas tudo na vida tem sua boa dose. Há algo de errado quando toda a política pode ser equiparada a uma liga de times disputando um troféu.

Lendo os jornais de janeiro, pôde-se acompanhar a chegada de Roberto Carlos ao Corinthians do centenário. A ida de Vagner Love para o Flamengo, compondo com Adriano uma dupla quase tão improvável quanto aquela com que o PSDB sonha para sua chapa presidencial (os "dois Tostões" do presidente Lula). O retorno promissor de Dodô no Vasco. A permanência de Kleber no Cruzeiro, depois do suspense. As tentativas frustradas do São Paulo de tomar Guiñazu do Internacional ou Robinho do Santos. A escassez de novos nomes no Palmeiras.

Do mesmo modo, pôde-se também aprender que o PT joga com Sérgio Cabral no Rio, mesmo se o PMDB não o fizer com Jacques Wagner na Bahia. Que Lula no embalo tenta escalar Marcelo Crivella na chapa de Cabral, mas Jorge Picciani não abre mão da posição. Que Jader Barbalho vai esperar pelas pesquisas no Pará, mas se tudo correr bem volta a formar dupla com a governadora Ana Júlia. Que Michel Temer insiste na vaga de vice e propõe até a elaboração de um programa de governo conjunto para a candidatura com Dilma, mas sugere a Aécio que se ele estivesse na disputa o quadro seria outro. E assim por diante.

Duas pré-temporadas, igualmente monótonas na preparação dos álbuns de figurinhas... Tudo certo com o futebol, que clubes não têm mesmo que se preocupar com mais do que títulos (e a favor deles diga-se que no futebol pelo menos os nomes dos patrocinadores aparecem estampados nos uniformes). Mas não deveria ser demonstração de ingenuidade ponderar que com partidos políticos a história deveria ser outra.

Eu sei: pode-se sempre sugerir que foi sempre assim (a única novidade, se tanto, sendo o momento em que o PT desistiu de vez de cumprir o papel de reserva moral e optou por entrar em campo também e tirar o atraso). Ou que nosso sistema político é assim. Ou que política é assim. Ou ainda propor, com parte da melhor ciência política nacional, que apesar disso na prática do dia-a-dia executivo e parlamentar nossos partidos não deixam de demonstrar mais coesão e inclinações programáticas do que se costuma supor. E apoiar-se nisso para esperar que haja tempo para o jogo melhorar, quando a campanha / campeonato começar pra valer.

Mas ajudaria enxergar mais ideias e propósitos no horizonte - se não dos políticos, pelo menos do jornalismo político. E não anima que tudo que haja proposto até aqui seja uma discussão de torcidas em torno de quem tem mais triunfos paulistas ou brasileiros, comparações de saldo de gols, passes errados e artilharias, e prognósticos sobre quem leva a próxima Libertadores. Vá lá: esta será uma eleição relevante, não um "jogo do século", e nós podemos fazer melhor do que isso.

6.2.10

roda do tempo 2


Ainda "A History of Modern Europe":

"The Second Industrial Revolution seemed oblivious to the long economic depression that began in 1873 and lasted until the mid-1890s. It was marked by falling prices and punctuated by financial panics, although not by prolonged unemployment or economic stagnation. Following a fever of speculation, particularly in Germany, banks failed in Vienna. The speed with which the crisis spread to other financial capitals reflected the extent to which improvements in transportation and communication during the middle decades of the nineteenth century had extended the links of an increasingly global economy. Agricultural prices fell virtually everywhere in Europe, in part because imported grain from the United States and Canada flooded markets. In every industrialized country, tariffs became the focus of impassioned political debate, even in Britain, where economic liberalism remained the prevailing credo. Governments responded to the depression by imposing protective tariffs in the interest of native industries and agriculture: Austria (1874), Russia (1875), France (1892), Italy (1887), and Germany (1902)."

 
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